As independências dos países africanos ocorridas na segunda metade do século vinte, tiveram como principais destinatários os membros das elites ocidentalizadas (e instrumentalizadas) das suas populações. Mesmo quando eles se diziam progressistas, socialistas, comunistas e outros “istas”, a verdade é que, salvo raras excepções, eram filhos de famílias que as potências coloniais tinham criado, protegido e enriquecido e não raras vezes tinham utilizado para submeter os povos desses países. Essas foram as famílias que enriqueceram com o comércio de escravos, com o trabalho forçado, com as agriculturas de exportação, com a mineração desenfreada, com a depredação das florestas.
Quando as independências chegaram, foi aos filhos dessas famílias, que tinham estudado nos colégios europeus que foi entregue o governo dos novos países. Na verdade e perdoem-me o radicalismo, os verdadeiro filhos dos colonos foram eles. Eles que herdaram países onde era possível sonhar a liberdade e a utopia, a igualdade e o desenvolvimento, e que numa patética imitação dos milionários ocidentais só se interessaram por enriquecer, olhando com desprezo autista a fome que o seu enriquecimento abusivo provocava nos seus próprios povos.
Na verdade, eles são os filhos do ocidente, essa élite repugnante, gorda e anafada, que trata milhões de africanos como verdadeiros escravos. Eles são os filhos do ocidente que os protege, que os corrompe e que se corrompe com as migalhas roubadas aos povos africanos.
Houve excepções ? Certamente, mas foram rapidamente afastadas, através do terror, do assassinato, do golpe de estado.
Nesta nova era da informação as novas gerações africanas e europeias só não sabem o que se passa, porque não querem ou quando não querem.
O que o mundo em geral e a África em particular estão a permitir que se faça no Zimbabwe é repugnante. Onde estão as grandes declarações, os debates sobre a fraude que se fez, o terror que se viveu ?
Recordo agoniado, que quando se reacendeu a guerra civil em Angola, por causa de uma fraude que manteve o Mpla no poder, todo o mundo com o governo português à cabeça, pediu (e conseguiu) a condenação da UNITA. A ONU decretou sanções contra os seus dirigentes, foram proibidos de viajar, e até os estudantes que a UNITA tinha enviado para universidades em Portugal viram as suas contas bancárias (onde só tinham a bolsa que recebiam) congeladas. Tudo isto feito a um partido que nem sequer era governo. E agora ? Porque é que Portugal não propôe sanções contra os governantes do Zimbabwe como propôs contra a os dirigentes da UNITA ?
Se calhar porque os dirigentes da UNITA não eram os filhos dilectos do ocidente como os outros eram e são...